Ela é trans, ele cis: a história do casal que superou todas as fronteiras

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Foto: Allyson Moreira
Nos poucos momentos que tem livre, a maior diversão da estudante de Psicologia da UFRN, Emilly Mel, 25, é participar de jogos virtuais. Em meados de novembro de 2013, durante uma partida de League of Legends, jogo de batalha virtual onde milhões de jogadores de todo mundo interagem numa disputa para destruir territórios inimigos, Emilly conheceu o paulista Willian Júlio, 19. Os jogadores são separados em equipes, escolhidas aleatoriamente, pelo jogo. Na disputa, Emilly atuava com a personagem Janna, uma maga que tem a função de suporte, de proteger os demais jogadores. “Identifico-me muito com ela, porque gosto muito de ajudar os outros também”, conta. Em média, são 27 milhões de jogadores por dia que participam dessa aventura online.

Já o Willian, estava no controle de um personagem guerreiro, cuja função na disputa era de se manter na ofensiva, na linha de frente para ataque. Segundo as regras do jogo, este tipo de personagem precisa ter na equipe um outro que que pudesse defendê-lo. Por sorte, ele ficou com Emilly, na mesma equipe. “Imagine que entre 27 milhões de jogadores tive a sorte de ficar com ela”, conta ele, creditando aquilo ao acaso.

Durante a interação, no jogo, os personagens possuem falas prontas, de acordo com o repertório cultural e da história de cada um na narrativa. A personagem da Emilly, por exemplo, adota um discurso mais sensual, consonante com o seu perfil na disputa. “Eu lembro que certa vez minha personagem disse aos companheiros de equipe: - Sim, por apenas R$2,95 por minuto eu posso acabar com seu fôlego”, conta, aos risos. Quando ouviu a personagem falando aquilo, Willian aproveitou para brincar. “Olha, eu tenho R$ 5. Faz dois minutos?”, brincou.

Foi a partir dessa interação que os dois passaram a entrar nos mesmos horários para jogar juntos. Mas Emilly não acreditava que aquela conversa pudesse ir muito além, então passou a construir a ideia de uma personagem lésbica, porque imaginava que, se ele não ligasse para isso, seria amor verdadeiro.

As conversas no mundo de fantasias avançaram de tal forma que eles passaram também a interagir no mundo real. “Depois de dois meses jogando juntos, tomei a iniciativa de pedir o telefone da Emilly”, conta Willian. A partir de então, passaram a manter contatos diários por telefone, que chegavam, muitas vezes, a cerca de três horas de duração.

Residente no município de Osasco, região metropolitana do Estado de São Paulo, Willian é o segundo mais novo dos quatro filhos que seus pais tiveram.  Mesmo separados por quase três mil quilômetros de distância, ambos decidiram, dois meses depois, por começar um namoro virtual. “Tentei ainda manter a desculpa de ser lésbica, mas as conversas evoluíram tanto que ele pareceu disposto a encarar o desafio de me conquistar”, conta Emilly. Não sabia o rapaz que Emilly já estava completamente apaixonada.

Mas o que Emilly ainda não tinha contado, e William tampouco percebido, é que ela era transexual. Com medo da reação que ele poderia ter, ao descobrir, Emilly passou a criar uma expectativa em relação a este grande segredo. Todo o suspense criou uma tensão em Willian, levando-o imaginar até que ela fosse portadora de alguma doença crônica. “Eu estava com medo de que ela estivesse com alguma doença grave como o câncer, por exemplo”, relembra. A essa altura, os dois já estavam fortemente envolvidos. Emilly estava disposta a contar o segredo; ele preparado para o pior. “Eu só não queria perdê-la”, conta.

Não aguentando mais esconder a verdade e aflita com a situação criada, Emilly ligou para Willian, disposta a contar o segredo. “Estava temerosa, aflita e ao mesmo tempo ansiosa com a possível reação que ele viria a ter”, lembra. Do outro lado da linha, Willian estava igualmente nervoso com o que poderia ouvir. “Meu coração parecia querer sair do peito, com tanta expectativa que sentia naquele momento”, conta. Sem mais conseguir conter as lágrimas e já convencida que ele não aceitaria, Emilly revela: “Willian, eu sou uma mulher trans”. Por alguns instantes, a ligação ficou muda. De ambos os lados da linha, o silêncio tomou conta. 

Ao ouvir dela que o segredo se tratava da sua identidade de gênero, a primeira ideia que veio à cabeça do Willian foi um alívio. Embora a idade pudesse apontar alguma imaturidade, naquele momento, ele foi muito maduro. “Eu vejo a Emilly como uma mulher presa num corpo com algumas particularidades masculinas, mas que nem por isso deixa de ser mulher”, conta ele, que dias depois, mais calmo, chegou a questionar a si mesmo sobre a sua sexualidade. “Partindo desse princípio que a Emilly é uma mulher, eu não sou homossexual”, diz hoje mais confiante de si e certo da orientação sexual.

O primeiro encontro

Com a relação oficializada, com o pedido de namoro e sem mais segredos para esconder um do outro, o próximo passo era, então, organizar o primeiro encontro. Sem trabalho, Willian teria de contar com a ajuda do pai para comprar as passagens aéreas com destino a Natal. “Juntava cada centavo que me era dado para lanchar na escola (em média de R$5 por dia), para conseguir vê-la”, lembra. O pai, porém, vendo o esforço do seu filho mais querido, comprou as passagens de ida e volta. O dinheiro que juntado, cerca de R$230, Willian gastou em um par de alianças de aço com detalhes em ouro. “As alianças significam um lanço concreto, de estarmos juntos na certeza de nos amarmos”, explica.


No dia 16 de janeiro de 2014, Willian chegou em Natal, onde ficaria até o dia 18 do mês seguinte. Em uma pequena quitinete alugada com o dinheiro que Emilly juntava da bolsa de apoio técnico que recebe da UFRN, nas proximidades da Praia de Ponta Negra, Zona Sul da cidade, os dois viveram os primeiros momentos juntos. O espaço é pequeno: um quarto-sala com uma cama de casal, bagunçada depois da primeira noite, um ventilador de teto, guarda-roupa quatro portas de madeira, uma penteadeira velha e uma TV de 14 polegadas; a cozinha parecia um corredor que levava ao banheiro, com apenas um fogão de quatro bocas, castigado pelo tempo. Sobre o fogão, as panelas abertas exibiam a macarronada feita para o almoço. Havia, ainda, um pequeno armário de madeira, com portas semiabertas, um suspensório improvisado para panelas, e uma pia cheia de louça suja, que ajudava a compor o cenário.

Sentados na cama, uma semana após a chega de Willian, a alegria parecia saltar do rosto de ambos, ainda amassados depois de uma noite de sono. Enquanto o gravador para entrevista era preparado, se ajeitavam lado a lado, encostados na cabeceira da cama como quem procura apoio para algo que estar por vir.

Para Emilly, a convivência com o namorado estava sendo uma experiência produtiva, com aspectos positivos e negativos. “Como todo casal, já tivemos discussões decorrentes das diferenças de idade, choques de pensamento, mas, de modo geral, tem sido uma experiência fantástica da qual eu aproveito cada instante”, conta. Já para ele, a pequena convivência com Emilly foi suficiente para que pudesse sentir como é a vida em casal. “Eu me sinto como um homem casado, que tem de lidar com outras responsabilidades e forçado a amadurecer mais rápido”, diz.

Dos momentos que já marcaram a relação de ambos, Emilly relembra de um que achou bastante especial. Exausta depois de um longo dia de aula, Emilly chegou em casa e se deparou com o jantar pronto, feito pelo namorado. Serviu-se e sentou na cama para comer, quando adormeceu, sem saber se chegou a terminar a refeição. “Eu acordei deitada, enrolada no lençol e sentindo suas mãos acariciarem o meu rosto”, conta ela, sem conseguir mais conter as lágrimas. “Esse momento me marcou porque pela primeira vez me senti amada por alguém, uma vez que minha família não me aceita e não posso contar com quase ninguém”, desabafou, caindo no choro.

Olhando para trás e vendo tudo o que aconteceu, ambos se surpreendem como um mero acaso mudou completamente a vida deles. “O fato de ter ficado no mesmo time do Willian naquele jogo, em meio a 27 milhões de participantes, é a prova de que o amor acontece quando menos imaginamos”, diz Emilly.

Os planos se tornaram mais ambiciosos. Willian pretende voltar um dia em definitivo para Natal e constituir uma família com Emilly. “Já imaginou se conseguíssemos adotar uma criança, como seria perfeito? ”, planejava ao lado da amada.

Eles temiam muito a reação que os pais de Willian, principalmente, pudessem vir a ter. Mas, no fundo, ele estava seguro: “Se minha ex não precisou dizer que é cis (mulher com vagina, contrário de trans), por que ela precisaria justificar”, explica ele.

A estratégia usada foi aproximar Emilly da família aos pouco. “Meu pai tem conversado bastante com a Emilly por celular e Skype, assim como tem demonstrado apoio ao nosso relacionamento”, conta Willian. Ano passado, Emilly viajou a São Paulo e conheceu os familiares de Willian, que a acolheu da melhor maneira possível.

No Dia dos Namorados, dois anos depois, o casal novamente está junto no espaço em que os olhares se cruzaram pela primeira vez. Mais maduros, hoje têm o apoio dos pais de ambos, que já sabem da "particularidade" do casal.

Independente das questões de gênero e da distância geográfica que os separam, o casal mostra que pelo amor estão dispostos a superar qualquer fronteira.

Imagem: Carol Rossetti

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12 comentários:

  1. Que história linda e emocionante! Chorei de coração partido na passagem "Esse momento me marcou porque pela primeira vez me senti amada por alguém, uma vez que minha família não me aceita e não posso contar com quase ninguém” Que o amor de vcs seja sempre mais forte que o preconceito odioso das pessoas!

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  2. Lindo artigo. O amor extrapola as barreiras da binaridade de gênero

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  3. Nossa que perfeito, me emocionei com as historia dos dois

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  4. Perfeito, linda historia me emocionou

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  5. Que história mais linda. Desejo muitas felicidades ao casal e que estejam encorajados a seguir de cabeça erguida SEMPRE. TODO AMOR DO MUNDO PRA VOCÊS!!

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  6. Desculpe a ignorância mas o que é uma pessoa cis?

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    1. Aquela que não é trans. Pessoa transexual é aquela que não se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer. A pessoa cisgênera (ou 'cis') é aquela que se identifica com o gênero que lhe foi dado, ou seja a grande maioria das pessoas são cisgêneras, enquanto outras são trans.

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    2. Cis é quem não é trans, resumidamente. Ou seja, pessoas cis são aquelas que se identificam com o sexo designado em seu nascimento.

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  7. Da hora, adorei a história. Sou homem trans hetero tbm. E adoraria esta reação a minha namorada. Apesar, de que a mesma me aceitou numa boa sempre. Adorei mesmo. Muito bacana a historia. Por ele ser um homem Cis, mtos no lugar dele teriam preconceito e mesmo gostando dela, largaria e sairia fora. Mas... esse cara aew, tem todo meu respeito. Levando em conta, q a grande maioria dos homens Cis tem um preconceito enooorme, mas o Wiliiam, tiro meu chapéu pra ele. Túfaz parte dos 1 por cento de homens Cis que prestam nesse mundo, cara. Me orgulhei de ti agora, mano rsrsr
    Felicidades para vcs

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    1. Obrigada! Que gentil! <3 Felicidade a todes!

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  8. NAO IMPORTA SE EH TRANS S EH CIS SE EH CASAL GAY HOMEM U CASAL GAY MULHER, O QUE IMPRTA EH O AMOR, O RESPEITO ENTRE SI, A CUMPLICIDADE, EM DIVIDIR NOS MOMENTOS DIFICEIS OU NAO UM UNICO CACHORRO QUENTE, UM UNICO REFRI, MAS MUITO MAIS QUE BENS TERRENOS, A UNIAO , ELO INPERCEPTIVEL ENTRE ACHAR E SER ACHADO AMAR E SER AMADO.
    QUANDO FALARAM NA CASSA PEQUENA LEMBREI DE MINHA HISTORIA PARECIDA, SOU HOMEM E CONHECI MEU COMPANHEIRO PELA SALA CHAT, ELE EM OUTR ESTAD NAMORAVA OUTRO CARA E EU EM MEU ESTADO NAMORAVA OUTRO E NS TORNAMOS AGOS ON LINE, E COM O PASSAR DO TEMPO VIMS QUE NOSSS RELACINAMENTOS REAIS NAO NOS FAZIAM FELIZES, MAS ACHAMOS ALEGRIA IMENSA EM TD DIA CNVERSAR ON LINE OU TROCAR 30 SEGUNDOS DE LIGACAO, SO PRA OUVIR A VOZ DO OUTRO.
    NO PROXIMO DIA 25-10-2016 IREMS FAZER 8 ANOS DE CASADOS, E INCLUSIVE NO PAPEL... QUEM DISSE QUE O NOSSO GRANDE AMOR SEMPRE ESTA PERTO, AS VEZES NASCE E VIVE LONGE PARA UM DIA SE TORNAR PERTO E QUEM DERA DEUS ETERNO. PARABENS A W & E QUE DEUS ABENCOE VOCES, INDEPENDENTE DE CREDO, COR, OU SITUAÇÃO SOCIAL O AMOR SEMPRE PREVALECERA CONTRA OS INCREDULOS OU PRECONCEITUOSOS QUE NAO CONSEGUEM VER ATRAVES DA VERDADEIRA PRIMA DA VIDA: NASCEMOS E VIVEREMOS APENAS UMA UNICA VEZ E O QUE IMPORTA EH VIVER BEM, E SER FELIZ, ENQUANTO VIVERMOS, E NESTE CASO SER FELIZ , AMAR E SER AMADO...

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  9. Que lindo, muito fofo vcs, lindo casal.

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