Je suis gays!

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Por Kelvis Nascimento

“Mamãe eu te amo! Ele está vindo e eu vou morrer.”(Eddie J. Justice, 30 anos)


O trecho acima não me deixou dormir nos últimos dias. Todas as vezes que lia as notícias sobre o atentado que matou 49 pessoas numa boate gay estadunidense, eu me colocava no lugar daquela vítima, na aflição de demonstrar o amor incondicional que ele sentia por sua mãe, sabendo que morreria vítima de um crime de ódio, um crime brutal.

Acredito que todos sentimos a aflição pela qual as vítimas passaram naquele momento. Foram mortos porque não podiam ser o que são. Foram mortos por manifestarem livremente o amor pela vida e por seus parceiros do mesmo gênero. Foram mortos por serem felizes do jeito que são, do jeito que eram.

Muito relutei em escrever sobre o caso. Eu estava esperando a aflição passar, sem sucesso, e aqui estou tentando analisar o que produziu tamanha crueldade, tamanho descaso com a vida, tamanha violência.

Atentados desse tipo demonstram um extremismo muito grande, geralmente presente nas religiões com viés fundamentalista mais fortes. O Islamismo em si, não pode ser condenado pelas atrocidades provocadas por seus seguidores, mas obviamente que suas doutrinas atenuam às diferenças e condenam condutas “desviantes”. Não quero aqui discutir sobre o fundamentalismo islâmico, até porque essa característica não é só do Islamismo. O que dizer dos fundamentalistas evangélicos brasileiros, por exemplo? Estamos tão diferentes deles? No Brasil, mais de 300 homossexuais são violentados e mortos por ano, isso quando entram nas estatísticas. Se o oriente tem o Estado Islâmico, nós temos os “Bolsonaros” e as “Valadões” pra disseminar o ódio entre as pessoas e a violência descarada.

Mas, voltando para Orlando, não demorou para a imprensa internacional atribuir ao atirador, Omar Mateen, o título de gay enrustido. Essa tentativa vil de uma interpretação psicanalítica da homofobia aparece quase que recorrente quando acontecem crimes com a comunidade gay. Como se ele fosse um desequilibrado, um perturbado, por ser gay. Como se o fato dele ser gay e não aceitar esse “pecado” ou “conduta” tivesse o levado a cometer essa barbárie.

Esse tipo de especulação, de suposição, é o espelho que reflete nossa cultura heteronormativa que violenta, castra e puni os desejos sexuais, impedindo a experiência e a vivência dos desejos livremente na cultura. Mesmo que ele fosse gay, isso não pode ser utilizado para transformar a homossexualidade numa doença que causa danos psicológicos e morais. Independente da sexualidade ou do gênero, todos os desejos são constantemente podados e retraídos pela heteronormatividade que acaba por criar indivíduos que se reprimem ao máximo, e quando não conseguem mais, cometem atos como o de Orlando.

Quando chamam um homofóbico de gay enrustido, ofendendo os gays e não os homofóbicos. E mesmo que esse homofóbico seja um gay enrustido, se ele vir a cometer algum ato de violência, não será pelo fato dele ser gay, será por causa da repressão imposta nessa cultura.

Novas interpretações sobre a vida de Omar vão surgir no decorrer da semana. Com certeza, a tentativa vai ser a mesma: torná-lo um gay enrustido que se tornou um homofóbico extremista. Mas não vão sequer comentar as várias maneiras com que ele foi proibido e reprimido de seus desejos. A ex-mulher já disse em entrevista, “ele tinha tendências gays”, ou seja, não pôde ser gay livremente, virou extremista. Lamentável essa interpretação.

Os líderes das maiores potências do mundo condenaram os ataques e pediram liberdade ao povo gay. Mas aqui no Brasil, nem sequer denominaram o atentado como crime de ódio aos gays, simplesmente como atentado terrorista, segundo nota divulgada pelo Itamaraty. Além disso, nenhuma autoridade do governo se pronunciou condenando os ataques e pedindo liberdade aos gays. Diante disso eu me pergunto, se fosse aqui no Brasil?

A comunidade gay tem que combater o ódio e o extremismo com o amor incondicional que sentimos quando lemos as últimas palavras de Eddie, “mamãe eu te amo”. Que as vítimas sejam lembradas para sempre. Que seus nomes virem ruas, músicas, nomes de escolas. Que a dor das famílias seja o combustível da luta do movimento LGBT mundial. E que o Brasil comece a refletir e a mudar. São nossos desejos para os dias e anos que virão.



 






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