Sobre machismo e cultura do estupro

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Por Kelvis Nascimento

Casos de estupro são recorrentes nos noticiários, mas a violência com que uma jovem de dezesseis anos foi estuprada por mais de trinta homens, há algumas semanas , revoltou a sociedade brasileira e trouxe à tona problemas abafados. O estupro, extremo da violência simbólica e física, pode ser compreendido como o estado de máximo machismo e subjugação do corpo feminino. Pesquisas apontam que a cada três horas uma mulher é estuprada no Brasil. Esse dado é alarmante e nos remete a discussão desse texto.

É necessário fazer algumas observações para iniciar esse debate. O primeiro e crucial deles é que o machismo não é algo intrínseco ao homem. Não é algo natural, biológico. Não faz parte de nenhuma essência do homem. O machismo é uma conduta, um habitus, representa um sistema de poderes exercidos pelos indivíduos e que está presente no seio social.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu, autor do livro A Dominação Masculina, faz uma importante consideração quando diz: “As aparências biológicas e os efeitos, bem reais, que um longo trabalho coletivo de socialização do biológico e biologização do social produziu nos corpos e mentes, conjugam-se para inverter a relação entre as causas e os efeitos e fazer ver uma construção social naturalizada”. Ou seja, a intensa reprodução e a cristalização das construções sociais fazem com que enxerguemos esses fatos como algo inato, naturalizado e biológico. Enxergamos o social como algo intrínseco.

A divisão entre os sexos, desde o nascimento da criança, está intimamente ligada a um conjunto objetivo e subjetivo de reprodução da ordem das coisas, apoiadas em normas presentes em todas as esferas de socialização do indivíduo. Mais claramente, se tem vagina, automaticamente é mulher e aprende-se a ser submissa, prendada para os trabalhos domésticos, mãe, boa esposa, recatada etc. Se nasce com o pênis, este será homem e educado para ser líder, caçador, forte e predador. Automaticamente o homem é posto no lugar de dominador e a mulher de dominada.

A força dessa dominação se deve, principalmente, ao fato dela dispensar justificação. Se analisarmos a linguagem, por exemplo, o gênero masculino é dado como algo neutro – que “serve” para nomear homens e mulheres —, mas se usarmos o gênero feminino, esse enfrentará resistência por ser caracterizado. Vemos, por exemplo, o uso de “x” para subverter essa lógica “Carxs amigxs”.
O lugar de submissão no qual o feminino foi colocado é o que transforma toda mulher no corpo violável, como se o homem tivesse direito a utilizar desse corpo para satisfazer suas vontades de macho. Ao falo, socialmente muito respeitado, é dado quase que uma consciência própria, aquele velho ditado “a cabeça de baixo também pensa”.
O homem retratado como selvagem sedento por sexo e que, por não conseguir fugir de sua natureza selvagem, estupra, violenta. Isso é aceito culturalmente, é o que chamamos de Cultura do Estupro. A naturalização dessa violência e, muitas vezes, a caracterização do estuprador como um “monstro” ou um “animal”, descaracteriza o homem enquanto sujeito dotado de normas sociais e o transforma em um agressor que age inconsciente como se respondesse a seus instintos primitivos. A isso se deve o fato da impunidade para esses crimes.
Mais que a gravidade da impunidade do agressor, a criminalização da vítima é o que mais choca. Argumentos como “Tá usando roupa curta, pediu pra ser estuprada”, “Se comporta feito ‘puta’, pega todo mundo”, “Com certeza ela gostou”, “Precisa ser bem comida pra aprender”, “falta de rola”, e muitas outras, são discursos carregados de poder e refletem uma cultura de punição a mulher. Punir às transgressões femininas com o poder falocêntrico do macho.
Essa naturalização, como se a sociedade já esperasse isso do homem, como se fosse um dos seus papéis, é que precisamos denunciar e descontruir.  Essa conduta se vale da educação machista que todos temos, sendo o homem principal vetor dessas práticas. Precisamos educar nossos meninos que o corpo é algo inviolável, e que as meninas não são propriedades deles.
Essa cultura patriarcal engendra suas raízes de maneira tão convincente e penetrante, que muitas vezes cometemos erros de análise e interpretações equivocadas sobre o machismo. Muitas vezes naturalizamos essas condutas discriminatórias e a reconhecemos como verdades absolutas.
Por isso, devemos ser vigilantes contra o machismo. Devemos ter em mente que todos somos propagadores desse tipo de pensamento desigual. Não é algo que foge das ações das mulheres também. Vale lembrar aqui que somos, em grande maioria, socializados por mulheres – mães, tias, avós —, mas que mesmo assim somos educados por concepções machistas.
A transgressão desse sistema opressor começa com o empodeiramento das mulheres. Esse termo surgiu com o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos na década de 1970, e que já na mesma década começou a ser utilizado pelo movimento feminista, visa à alteração dessas estruturas sociais que reduzem as mulheres à condição de subordinada dos homens. A luta pelo empoderamento das mulheres deve surgir na vanguarda de uma sociedade que visa ser mais justa e realmente igualitária. Sabemos que é um processo demorado, mas já vemos esse movimento crescer no Brasil, seja no mercado de trabalho, seja na vida privada, na vida pública, na maioria das representantes mulheres do congresso nacional, nos meios acadêmicos e em muitos outros espaços.
A problematização e a grande repercussão que esses casos vêm tendo, sobretudo nas redes sociais, mostram que essa vigilância está crescendo. A sociedade não aceita mais se omitir diante de tanto despautério. As minorias estão se conscientizando e unindo forças para quebrar de uma vez por todas essa hegemonia do macho.
Para além do debate em redes sociais, esse empoderamento deve ser difundido no dia a dia, nas vivências, nas rodas de conversas, nos barzinhos, toda e qualquer conduta machista deve ser denunciada e criminalizada, não deve passar despercebido. Afinal, como diz Michel Foucault, o poder está nas microfísicas.
Apesar do intenso conservadorismo que tomou o Brasil, há resistência e muitas vozes se unem na luta contra a violência e o desrespeito às mulheres e às minorias.
Fiquemos, pois, alertas e vigilantes!

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Um comentário:

  1. Como você fala besteira, bicha!
    A garota do Rio era uma prostituta, que se deixou fotografar entre bandidos, ela própria com um fuzil na mão.
    O delegado, àquela época, tentou alertar, mas foi trucidado pela ditadura do pensamento - da qual você faz parte - que depois meteu o rabo entre as pernas e se quedou caladinha. Até a piranha aquela sumiu de cena.
    O feminismo está deixando - isto sim - femininos os homens.
    Deus me livre! Sou gay e adoro macho e não afeminados medrosos.
    Adoro macho que cumpra seu papel de macho, seja em relações heterossexuais ou homossexuais.
    Agora, é evidente - evidente - que a violência à mulher é um fato, assim como há violência contra todas as pessoas, sobretudo numa sociedade cuja bandidagem - apoiada por gente como você - vigora solta e faz o que quer.
    Pela direito ao porte de arma, baseado em critérios objetivos! Aramada, a mulher se protegerá melhor.

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