Sobre os afetos

By | 06:26 1 comment

Nós, seres humanos, somos como abismos de afetos desordenados. Temos que estabelecer limites.
Aí você lê essa frase e já acha que o texto é um editorial de como voltar às amarras sociais. Calma, leia.

Não é possível viver sem limites, os limites preservam a nossa própria vida, organizam o caos que somos. Nossas ações, se concentradas e organizadas, atingem o alvo de maneira mais eficaz do que caso atiremos para todos os lados. Nos relacionamentos temos esse grande desafio moderno que é regular e organizar nossos afetos.

Afetos ou paixões, caso queiram utilizar essa palavra, são nossos impulsos, nossas vontades, nossos desejos que não são iguais aos sentimentos. Os sentimentos são afetos ordenados, catalogados, significados - ódio, amor, alegrias - nossos afetos são a intensa pulsão dos nossos desejos mais ferozes. 

Socialmente, hoje, o que mais escutamos é que os relacionamentos não vingam ou não perduram porque as pessoas querem viver ao máximo seus prazeres e desejos e, dessa forma, abandonam a manutenção de um relacionamento a dois, com fidelidade e doação total. Eu, particularmente, acho isso muito bom. Que bom que largamos o padrão transcendental, histórico, de relacionamentos em formatos padrão. 

Vivemos na indecisão, procuramos amores de cinema, amores eternos, amores dos contos de fadas. Ao mesmo tempo queremos festas, conhecer pessoas novas, novos corpos, novos aplicativos, novas, novas, novo. Tudo novo. Mas como resolver o impasse de querer tudo novo se ao mesmo tempo queremos o único o exclusivo?

Essa reflexão parte desses conflitos, dessas escolhas. Como viver um relacionamento num mundo de facilidades, atrações e desejos fáceis? Onde está o amor nessa sociedade fluida e passional? Por que tantas traições? 

Vivemos os excessos, e por não sabermos controlar esses excessos, nós nos afastamos deles, tentamos eliminar todo e qualquer vínculo que possa se tornar sofrimento. 

Eliminar o sofrimento é o primeiro erro que cometemos. Como viver sem sofrer? Não há encontro que não venha acrescido de alegrias e sofrimentos, não estamos nos contos de fadas da Disney, lembram? Até os contos de fadas já mudaram, vilãs são protagonistas e monstros são Pop. Como diz, Viviane Mosé, filósofa e psicanalista, o sofrimento molda o homem, o sofrimento nos dá maturidade.

Há outra forma de lidar com os afetos. Precisamos coordená-los, unir nossos afetos aos afetos dos parceiros que encontramos. Os enamorados devem construir, eles mesmos, seu modelo de namoro, casamento, etc. 

A cumplicidade dos enamorados é que vai garantir durabilidade no relacionamento, evita traições, evita frustrações, amplia e organiza os afetos transformando-os em sentimentos bons. Afinal, como diz a Viviane, citando Spinoza, “somos feitos de bons e maus encontros”. Não vejo por que sentir falta do modelo padrão de relacionamentos, visivelmente existem subjetividades que não se encaixam nesse modelo, e, sendo assim, devem ter autonomia para criar os modelos que acharem convenientes. Desde que tudo seja conversado e acordado entre os envolvidos, entre os enamorados.

Os afetos não devem ser desconsiderados se queremos viver a intensidade produtiva da vida, não há como conter os afetos, mas há como encadeia-los, torna-los potência. 

Ao nosso lado, já vemos brotar relacionamentos desse modo, relações abertas, poliamores, etc. Muitos veem com estranheza e preconceito, como tudo que é novo e “desconhecido”, mas não viveríamos se ligássemos para todo tipo de opinião, não é mesmo? 

Não vejo essa metamorfose como uma obrigação. Se há parceirxs que optam por relacionamentos no modelo padrão, que seja, mas saber que existem outras maneiras é, no mínimo, reconfortante. 

Não que seja fácil encontrar alguém com a vibe igual a nossa, não que seja fácil estabelecer esses parâmetros para o relacionamento, mas fazer o quê? Se isolar do mundo e morrer esperando o carinha ou a moça no cavalo branco? Acho que não né?

Isso em mente, o mundo está em transformação, não fique parado, mude também. Procure transformar seus maus encontros em experiências, suas dores em potência produtiva, suas decepções em vitórias. O que não podemos é nos deixar levar pela inebriante sedução dos sentimentos ruins, tristeza, desilusão, ódio, dor. 

Temos que passar por eles com o nariz em pé, tornando esses momentos de bad em alicerces para voos mais altos. E, claro, se tivermos um ombro, ou dois ou três, para chorarmos, melhor ainda, mas se não, temos que achar consolo na própria vida, na sua exuberância. 


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Um comentário:

  1. Tá difícil demais encontrar gente querendo compromisso, o texto aí disse tudo.

    Posta o contato do gatinho que escreveu. huahushuauehuhauhuehe

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