Uma em cada cinco refugiadas sofreu violência de gênero, revela ONU

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Foto: Agência Brasil
Uma em cada cinco refugiadas – ou mulheres deslocadas em complexos humanitários – sofreu violência. O número, divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU), ainda é subnotificado e serve como alerta no Dia Laranja pelo Fim da Violência contra as Mulheres, celebrado neste domingo (25).

Segundo a ONU, a discriminação contra mulheres e meninas é causa e consequência do deslocamento forçado e da apatridia (falta de nacionalidade e de cidadania). Muitas vezes, essa discriminação é agravada por outras circunstâncias, como origem étnica, deficiências físicas, religião, orientação sexual, identidade de gênero e origem social.

As mulheres representam 49% das pessoas refugiadas em 2016, de acordo com relatório Tendências Globais, do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). Aquelas que estão desacompanhadas, grávidas ou são idosas estão ainda mais vulneráveis.

Muitas dessas mulheres estão fugindo de conflitos em sua terra natal e sofreram violências extremas e violações dos direitos humanos, como assassinato e desaparecimento de familiares, violência sexual e de gênero e acesso restrito a alimentos, água e eletricidade. Algumas foram repetidamente deslocadas ou foram exploradas ou abusadas em busca de segurança.

As mulheres refugiadas também são, muitas vezes, as principais cuidadoras das crianças e dos membros idosos da família, o que aprofunda ainda mais a necessidade de proteção e apoio. Com oportunidades econômicas limitadas, as opções para construir meios de subsistência geralmente são limitadas ao trabalho informal de baixa remuneração, o que aumenta o risco de serem colocadas em situações precárias de trabalho.

Refúgio no Brasil

Dados do último relatório do Comitê Nacional para Refugiados (Conare) apontam que 32% das 10.038 solicitações de refúgio foram feitas por mulheres no ano passado. O número total de refugiados reconhecidos no país aumentou 12% no país, em 2016, chegando a 9.552 pessoas de 82 nacionalidades.

Do total de refugiados no país, 8.522 foram reconhecidos por vias tradicionais de elegibilidade, 713 chegaram ao Brasil por meio de reassentamento (transferidos de outros lugares) e a 317 foram estendidos os efeitos da condição de refugiado de algum familiar. Os países com maior número de refugiados reconhecidos no Brasil em 2016 foram Síria (326), República Democrática do Congo (189), Paquistão (98), Palestina (57) e Angola (26).

Dia Laranja

Todo dia 25 do mês é um Dia Laranja pelo Fim da Violência contra as Mulheres. Conclamada pelas Nações Unidas no marco da Campanha UNA-SE, a data busca ampliar o calendário celebrado no dia 25 de novembro – Dia Internacional pelo Fim da Violência contra as Mulheres. Trata-se de um dia para dar visibilidade ao tema, mobilizar o compromisso e exigir as condições para que mulheres e meninas possam viver uma vida livre de violência.

Em 2017, o Dia Laranja adota o lema “Não deixe ninguém para trás: acabe com a violência contra as mulheres e as meninas”. A convocação soma-se aos desafios da Agenda 2030, compromisso assumido pelos Estados-Membros das Nações Unidas pela promoção da igualdade e o desenvolvimento social em todos os níveis e para todas as pessoas.

Projeto Vidas Refugiadas pretende dar visibilidade e voz às mulheres que pedem refúgio e vivem hoje no Brasil

O tema do refúgio vem sendo abordado em pesquisas acadêmicas e relatórios midiáticos, sempre a partir da perspectiva masculina e raramente com foco na mulher. Por ser minoria, diante das 60 milhões de pessoas deslocadas, a mulher refugiada acaba herdando a invisibilidade já habitualmente experimentada pelas mulheres brasileiras, fazendo com que suas dificuldades sejam menos ouvidas, suas particularidades pouco respeitadas e sua feminilidade completamente ignorada. O resultado desse processo de anulação limita seu acesso a direitos, amplia sua exclusão social, impede sua plena integração e provoca uma perigosa repetição das violações já vivenciadas em seu país de origem.

As refugiadas são mulheres que não tiveram outra opção senão abandonar suas histórias e locais de pertencimento para salvar sua vida ou preservar direitos fundamentais, como a liberdade. Diferente da imigração que é facultativa e motivada por razões diversas, o refúgio é a única rota de salvação para aquelas que sofreram diferentes tipos de violência. Essa violência pode acontecer de forma generalizada, como na Síria, ou individualmente contra mulheres que passam a ser perseguidas em razão da sua posição social, costumes religiosos, identidade sexual ou apenas pelo fato de ser mulher.

Em territórios que experimentam situações de guerra e conflito armado, constatamos que as mulheres são sempre as que sofrem as mais graves violações e a maior exposição. Exposição da sua casa, da sua família e do seu próprio corpo que, não raramente, passa a ser mera moeda de troca no conflito. A objetificação dessas mulheres passa, muitas vezes, desapercebida pelas autoridades internacionais e poucas providências são tomadas para garantir a manutenção da sua dignidade. Em busca de salvar sua própria vida, essa mulher precisa fugir e é levada a tomar decisões duras, envolvendo a manutenção da sua liberdade, o futuro dos filhos e a preservação da sua família.

Distante do seu país de origem, o processo de inserção em uma sociedade completamente distinta é doloroso e gradual. Os desafios encontrados nessa nova realidade, somados à insuficiência de políticas públicas adequadas, provocam um cenário de instabilidade que prejudica o recomeço que pretendia viver no país de acolhida. O sentimento de perda, a nostalgia, as incertezas e a vulnerabilidade experimentada, evidenciam o seu não pertencimento àquele novo local, mas, regressar tampouco é uma opção.

Confrontados com esse dilema e no intuito de auxiliar na integração das mulheres refugiadas que, hoje, vivem no Brasil, desenvolvemos o projeto Vidas Refugiadas, que pretende abrir um espaço único para que elas possam se expressar, apontando os obstáculos do seu novo cotidiano e os caminhos trilhados na busca pela sobrevivência.


Clique aqui e conheça mais sobre o projeto Vidas Refugiadas
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